A paisagem passava rápida pela janela do Volvo
C30, variando entre altas montanhas cobertas por vegetação nativa e enormes
campos de capim baixo com lindos casebres solitários. No banco do passageiro
Lucca lia um livro despreocupadamente, apenas levantando os olhos quando algo
lhe chamava atenção em sua visão periférica. Ele já tinha cruzado aquela
estrada inúmeras vezes no trajeto entre São Paulo e Minas Gerais, mas desta vez
era diferente. Sentia como que se um buraco tivesse sido aberto em seu peito.
Mas não queria externar este sentimento, nem mesmo para o seu melhor amigo,
Ricardo, que o acompanhava na viagem, e estava na direção do carro. Ele sabia
que ninguém entenderia, todos achavam que ele tinha a vida perfeita, uma boa família,
bons carros e roupas, uma noiva linda e bem educada e todo dinheiro que
precisava para se manter pela vida toda. Nenhum dos seus amigos ou familiares
entenderiam os motivos dele ter acabado com o noivado na noite anterior, sem consultar
ninguém, e simplesmente ter saído para uma viagem de carro, depois de convencer
Ricardo de acompanhá-lo. Na verdade a viagem
para a casa dos seus avós em Belo Horizonte tinha sido exatamente para estar
longe quando a bomba do fim do noivado estourasse. Era um casamento quase que
dado por certo. Ninguém poderia suspeitar que ele não estivesse satisfeito com
o relacionamento que durava por mais de três anos. Sua noiva, Ana Julia Brotas,
era uma garota espetacular, de boa família e considerada o par perfeito pra
ele. Então mesmo que a muito a paixão tivesse se esgotado, ele ia levando o
relacionamento em boa forma. Mas sentia falta de sentir o coração pulsar, as
mãos ficarem frias de ansiedade pelo encontro com a amada, sentir borboletas
voarem no estomago a cada toque. Eles simplesmente eram um belo casal para
belas fotos de família. E a muito que pra ele isso não bastava.
Três meses antes ele foi convidado para visitar um
colégio em uma pequena cidade mineira a 150 km de Belo Horizonte. O lugar não
chegava a ter seis mil habitantes, a escola era um lugar simples, mas logo pode
notar que as pessoas que trabalhavam ali prezavam por ele, deixando tudo o mais
organizado possível. O convite veio atrás da diretora da escola que se
encontrou com ele em um evento da fundação gerida por sua família. Na visita a
escola ele conheceu Thaiana, uma jovem professora do ensino básico. Quando a
viu foi como se todas as vozes do mundo se calassem, era de uma beleza tão
singela e ao mesmo tempo estonteante que mesmo as flores que enfeitavam sua
sala tinham que pedir licença para rouba-lhe um pouco do brilho natural. Eles
foram apresentados pela diretora, e ela começou a falar do projeto pedagógico que
a escola queria implantar em conjunto com a fundação Ludovic Âmbar, mas ele não
conseguia prestar atenção nas palavras, simplesmente às ouvia e acenava com a
cabeça. Queria decorar cada detalhe do rosto daquela garota que falava com
tanta paixão sobre a importância da educação e do conhecimento para as
crianças. Olhava tão ardentemente para ela, que logo ela estava se sentindo
cabulada diante do seu olhar. Quando ela terminou de expor o projeto, ele foi
convidado a assistir uma apresentação dos alunos do ensino básico, sobre a preservação
dos mananciais. O primeiro momento de contemplação
e encanto já havia passado e ele pode aproveitar e se divertir com a encenação
teatral das crianças. Após efusivas palmas ele disse a diretora e a Thaiana que
a decisão não era exclusiva dele, mas que ficaria mais dois dias na cidade para
avaliar melhor, conversar com alunos e outros funcionários da escola. A verdade
é que era sexta feira e nos dias seguintes não haveria aula, mas ele queria
conhecer a garota melhor, e pediu que ela fosse sua guia pela cidade a procura
de depoimentos. Assim eles passaram um fim de semana juntos fazendo visitas,
conversando, almoçando, e o pequeno interesse inicial foi aumentando. E com os
contatos e reuniões que se seguiram nos meses seguintes, sempre se encontrando,
logo o sentimento foi ganhando forças. Mas até então nada poderia acontecer,
ele era um rapaz comprometido e rico, ela uma professora de uma pequena escola
em um pequeno município mineiro, pobre, porem muito honrada, não iria se
intrometer no relacionamento dele, qualquer aproximação amorosa com alguém que
era noivo de outra mulher estava fora de cogitação.
Ele sabia que noivado é um compromisso sério, que
traz a expectativa da confirmação da palavra dada à outra pessoa, mas não podia
se casar com Ana Julia, se seu coração chamava por Thaiana. Então usando o bom caráter
que tinha decidiu ser sincero com sua então noiva e terminar o compromisso. Poderia trazer algum sofrimento à garota, mas
nada pior que se casar com alguém que não a amava mais. A conversa foi calma e
sincera, ela já a muito notará que o relacionamento deles não ia bem, seus próprios
sentimentos por ele já não eram de paixão, mas de companheirismo e amizade.
Estavam acomodados com o status de belo casal a ser admirados por todos, e
assim segundo ela poderiam casar, ter filhos e uma boa vida juntos, mas sempre
seriam bons companheiros um para o outro, sem nunca chegar a serem amantes
apaixonados. Ela desejou que ele fosse feliz com a garota mineira, e que
tivesse forças para enfrentar as criticas que poderiam sofrer por serem de
classes sociais extremamente opostas. E por fim ofereceu seu apoio e amizade
E assim ali estava ele com seu melhor amigo, na BR-381
[Fernão Dias], indo ao encontro de sua amada para lhe dizer que enfim poderiam
começar a ter uma história juntos. Sentia um vazio enorme que só poderia ser
preenchido com uma palavra que embora pequena vindo dela iria tomar enormes proporções e o preencheria
por completo. Ler ajudava ele tirar um pouco o foco dos pensamentos sobre eles,
e a paisagem vista pela janela mostrava que a cada giro do motor eles estavam
mais perto de se encontrarem. Mesmo que ela não soubesse que ele estava indo ao
seu encontro.
Quando enfim o carro pegou a saída da rodovia para
entrar na cidade, ele pode sentir seu coração acelerar ainda mais. O projeto
tinha sido aprovado há quase um mês, então ele sabia que ela estaria no colégio,
então guiou o amigo para lá. Era fim de tarde e o lugar estava silencioso. Os
portões nunca estavam trancados então ele o portão principal para Ricardo
estacionar o carro, e antes mesmo de esperar o amigo manobrar ele fechou o
portão e foi a para a sala de Thaiana. Como sempre havia um vaso com flores
sobre a mesa e muitos cartazes de sulfite colados nas paredes com letras do
alfabeto e desenhos feitos pelos alunos colados em barbantes lembrando um varal
de roupas. Ela estava sentada atrás da mesa com a cabeça baixa, muito
compenetrada na leitura das atividades de sua classe horas mais cedo. Ele deu
três leves toques na porta. Olhou para as flores e desejou ter pensado em
trazer rosas, a ocasiões pedia isso, marcou mentalmente de enviar varias dúzias
de rosas para ela. Ela levantou o olhar e viu ele ali parado no limiar da
porta, sua primeira reação foi de surpresa, mas logo abriu um belo sorriso, que
fez o peito dele aquecer com os sentimentos.
Ele se adiantou e entrando na sala, que estava vazia, apenas eles
estavam ali naquela hora do dia. Antes que ela falasse qualquer coisa, ele se
ajoelhou aos seus pés e disse:
- Eu posso realmente estar fazendo um enorme papel
de bobo aqui, neste momento, posso ter interpretado cada olhar, cada sorriso,
ajeitar de cabelo e cada palavra escapada sem querer, posso ter interpretado cada
uma destas coisas errado. E eu devo admitir garota que nada me dá mais motivos
para sorrir, do que ver o seu sorriso. Mas eu acho que nada disso me enganou, e
que você está sentindo o mesmo que eu, e que não quer mais guardar isso apenas
no seu peito, que quer dar vazão a tudo que sente e traz em si. – Ela apenas
sorria, talvez prevendo o que viria a seguir – Thaiana, eu acabei de deixar São
Paulo, sem que quase ninguém soubesse para onde eu estava vindo. Terminei meu
noivado de três anos, vim direto para cá, ensaiando o que iria te dizer, quais
palavras bonitas eu iria usar, tentando achar as certas para te mostrar o
quanto gosto de você, mas a verdade é que não sei falar como os poetas, e tudo
que quero dizer talvez nunca conseguirei, mas de um modo simples muito pode ser
dito em duas simples frases. Eu te amo. Quer namorar comigo?
Um enorme silêncio se fez, por alguns segundos, o
sorriso deixou o rosto dela. E então um ainda maior iluminou o iluminou. E ela
abriu a boca deixando sair dela uma única palavra momentos antes de se jogar
nos braços dele em um abraço apertado. Ela disse:
- Sim!
Os medos fugiram, já não havia mais vazio em seu
peito. Seu mundo foi cheio do cheiro doce do perfume dela. Cada poro do seu
corpo entrou em festa quando ao fim do abraço seus lábios se encontraram
celebrando o inicio de sua vida em conjunto. A partir dali já não importava o
que os críticos de plantão diriam. O que viessem contra eles seria superado se
estivessem juntos e pudessem sentir o abraço do outro a socorrer e consolar.


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