Encontro com a Paz


Ela não me era estranha, embora as lembranças que a envolvia chegassem a mim com dificuldade. Talvez tivéssemos nos esbarrado em algum jantar de noivado de amigos em comum. O que não resolveria o problema, porque tenho muitos amigos e noivar parece ser a maior moda entre eles. Sem duvida eu queria falar com ela, sua beleza já me saltava aos olhos e claramente não atingia só os meus. Eu teria que agir rapidamente ou perderia a chance de chegar até ela, mas se realmente já tivéssemos nos conhecido, ela poderia se lembrar de onde, e eu estaria em maus lençóis e perdido na conversa. Aos poucos me recordei que quando a vi estávamos em um restaurante e que muitos talheres estavam sobre as mesas. Outra lembrança que não ajudava em nada, sou um critico gastronômico, e restaurante é praticamente meu habitat natural.  O que não era natural na lembrança é que realmente eu estava feliz nela, coisa difícil de acontecer quando vou fazer uma avaliação. Não por eu não goste do que faço profissionalmente, mas porque é maçante ver tantas pessoas se esforçando para me agradar, quando na verdade tudo que preciso é ser servido como qualquer outro cliente, enquanto experimento dois ou três pratos da casa. Então decididamente não era um dia de avaliação.

Nunca fui um Dom Juan, mas sempre me orgulhei do meu bom faro para mulheres bonitas, jamais me esqueceria assim de uma garota tão linda, com olhar misterioso e envolvente.  Notei bem a tempo que o rapaz mais alto em uma rodinha de amigos apreciadores de cerveja, estava se aprontando para chegar nela. Era a hora de agir, decidi jogar com as cartas que eu tinha nas mãos. Sem demora me aproximei do balcão onde ela aguardava uma mesa vaga:

- Não é incrível isso?
- Existem muitas coisas incríveis no mundo, mas com certeza neste restaurante algumas delas se apresentam.
- Concordamos com isso, mas me referia ao fato de nos encontrarmos novamente.
- Estamos em um restaurante em que uma garrafa de água custa trinta reais, e você acha incrível que tenhamos nos reencontrado? Neste caso tenho o direito de achar incrível que você ache que uma cantada assim funcione comigo.
- Não é uma cantada barata, eu realmente sei que já nos conhecemos antes. Quase certeza que foi em outro restaurante.
- Você é Luigi Navas, critico gastronômico e irmão do esposo da minha melhor amiga. Conhecemo-nos há dois anos no jantar de casamento deles, no Makanawi.
- Então você sabia que não era uma cantada?
- Esta parte não, mas todo o resto com certeza era.
- Sim, eu queria me aproximar de você. Agora posso pagar um jantar pra ti?

Ela sabia que eu não pagaria o nosso jantar, eu estava ali para fazer uma avaliação, eles me dariam metade do restaurante de cortesia, para ter uma boa avaliação no jornal do dia seguinte. E esta foi uma das poucas vezes que realmente aproveitei o jantar em uma ocasião assim. E pela primeira vez eu realmente me divertir em uma avaliação. Ela tinha um humor impar e muito sutil. Passei o jantar inteiro pensando, como fora possível me esquecer de uma garota assim.


Duas semanas desde aquela noite, aparentemente ela é mesmo diferente das outras garotas. Apesar de um ter lhe dado meu numero, ela não me ligou nenhuma vez. Quando passei por cima do meu orgulho e telefonei para ela, ouvi sua voz ao fundo, enquanto uma garotinha de voz adorável conversava comigo, antes de chama-la e lhe passar o aparelho. Ela explicou que fora a sobrinha que atenderá o seu celular e que pedia desculpas se caso ela tivesse sido impertinente de alguma forma. Eu disse que não e que a garota era muito gentil e educada. Logo após a chamei para sair comigo no fim de semana seguinte, mas ela não aceitou o convite e desligou o telefone antes de eu poder argumentar devidamente. Fiquei com meu telefone na mão e sem interlocutor do outro lado. Meu Deus do céu o que se passava com aquela garota, porque negava a nós o prazer de repetir uma noite tão boa quanto àquele do jantar.  E o pior que a negativa dela só me fazia ter mais vontade de me aproximar e entender como ela funcionava.

Ela tinha uma arrogância e um desprendimento no modo de falar que me fascinava sem eu entender por que. Talvez pelo fato de eu fazer uso deste recurso de expressão em muitas ocasiões,  entretanto até aquele momento isso era uma das coisas menos atraentes a mim no sexo oposto.  Mas nela aquilo parecia são incrível, dando mais ênfase a cada frase proferida. Que em pouco tempo eu já flagrava em muitos momentos simplesmente revivendo cada uma das suas palavras.  E estar com ela era quase uma obsessão do meu dia.

Eu sabia que tinha outras formas de chegar até ela, poderia usar a minha cunhada para forçar uma situação supostamente natural de encontro, mas isso me parecia muita apelação. E até vergonhoso na verdade, um artificio melhor usado por adolescentes para chegar na garota bonita do colégio. Eu não iria precisar disso!


Meus amigos costumavam definir-me como um solteiro convicto, eu nunca estava em um relacionamento por mais de seis meses, nunca cultivava dores de términos de namoros por mais de uma semana.  Não porque eu fosse insensível ou blindado contra coisas do coração, mas porque sempre achei bobagem fazer uma enorme tempestade por algo que nem mesmo ainda era meu. Sei que muitos têm a necessidade de ficar num casulo até estarem restabelecidos de suas dores, mas isso não funciona para mim. E quanto aos relacionamentos expressos, acredite se quiser, simplesmente não tive sorte de encontrar uma garota pela qual valesse a pena aceitar o custo beneficio de um longo relacionamento.  Mas isso estava mudando, porque eu também jamais tinha pensado em uma garota com a qual nada eu tivesse por mais de um dia. E nela eu pensava por mais de seis meses, sem nem mesmo ter trocado um simples beijo de fim de noite.

Numa noite de sábado eu estava cansado demais para aceitar os convites de festas e jantares, então decidi ficar em casa. Próximo às vinte horas senti fome, mas ao olhar na dispensa nada ali me agradou. O mercado ficava a dois quarteirões, então com sorte em meia hora eu já estaria preparando algo para comer. Minha Lexus vermelha estava me aguardando na garagem do edifício, dei graças a Deus por ter escolhido a  segunda vaga após a pilastra , porque a colada a coluna tinha ficado como vaga adicional e quase nunca alguém estacionava por ali, o que me poupava de ter discussões inúteis por causa de riscos no carro. O que por uma infeliz coincidência acontecia naquele momento entre dois dos meus vizinhos de prédio, aparentemente um adolescente tinha pegado o carro do pai pela primeira vez e errado na saída, riscando o carro subsequente. Eu não me envolvi naquilo, apenas entrei no carro e sai perfeitamente, achando que minha proficiência ao volante poderia ser didática ao garoto que era inundado de criticas pelo vizinho. Alguns minutos depois eu já estava no supermercado, que estava meio vazio para uma noite de sábado, talvez as promoções tivessem acabado antes das seis da tarde. Circulei pelos corredores a procura dos ingredientes para o jantar. Na seção de enlatados lá estava ela, tão linda e morena quanto eu lembrava.

- Olha a seção de enlatados não se engana quando junta duas pessoas.
- Meu Deus, você aqui Luigi?
- Sou conhecido como rato de supermercado, ainda não sabia?
- Na verdade pensei que o grande Luigi Navas, nem se quer sabia que supermercados existiam.  Você pode comer de graça quando e onde quiser.
- Mas o que você não sabe sobre mim é que não abro mão de fazer minhas compras e que o supermercado é onde eu testo minhas cantadas baratas. Segundo me falaram elas são bem legais. Quer  ouvir uma delas?
-Por favor, me poupe, você não precisa disso.
- Não preciso? Porque tem me ignorado sistematicamente?
- Eu não tenho ignorado você Luigi, eu tenho ignorado o mundo.
- E porque uma atitude tão drástica? - Eu sabia que estávamos em um corredor de supermercado, mas estava curioso de verdade –  Eu posso ajudar em algo?
- Só Deus pode ajudar!
- Podemos pelo menos conversar, se quiser.
- Preciso voltar rapidamente para casa. Você pode vir comigo. Fica a alguns quarteirões, podemos ir de taxi.
- Estou de carro, será um prazer te dar uma carona e ouvir sua história.

Terminamos nossas compras e saímos juntos do supermercado, ela quase não abriu a boca até chegarmos ao carro.  A minha Lexus LFA se mostrou pequena para tantas sacolas, mas demos um jeito. Quando se sentou ao meu lado, ela começou a falar:

-Luigi você precisa entender algo antes de chegar a minha casa.
- Pode dizer, estou ouvindo Yasmin.
- Minha sobrinha Gabriela, perdeu os pais muito cedo, ela tinha apenas seis meses quando eles morreram em acidente de carro, na volta de um final de semana na praia, felizmente a Gabi estava no carro, mas não se machucou muito. E desde então eu tenho sido responsável por ela. E ela precisa de muitos cuidados, porque nasceu com uma doença degenerativa grave, chamada retinopatia da prematuridade, desde que nasceu ela vem perdendo a visão gradativamente, hoje ela tem dez anos e trinta por cento da visão do olho melhor. Eu vivo só para ela, ajudando a se adaptar ao mundo e a entender o porquê a cada dia ela enxerga menos, e que logo poderá não enxergar mais. Por isso não posso aceitar convites de encontros românticos à noite, não posso me ausentar por longos períodos. E hoje preciso de sua ajuda, ela esta testando seus limites, buscando sua independência, então quando chegarmos, mesmo que você ache que precisa ajuda-la, não faça isso, ela precisa se sentir confiante em casa, não a apoie com as mãos, não tente leva-la a qualquer lugar dentro de casa. Acredite sua primeira reação será a ser gentil, ela não precisa disso, ela precisa ser estimulada a vencer seus próprios desafios.
- Nossa! Tentarei me lembrar disso!


Ela morava no edifício enorme, que da sacada do meu apartamento eu via ao longe. O apartamento era um pouco menor que o meu, mas muito mais vago, imaginei que fosse por causa de Gabriela, para ela não esbarrar nos moveis. Yasmin deixou as sacolas na cozinha e sumiu dentro do corredor em busca de Gabriela para me conhecer. Dois minutos depois uma garota de cabelo muito negro e pele branca apareceu vestida em uma roupa de bailarina rosa. A cada passo ela dava um pequeno salto, como se fizesse um passo de ballet.  Tive medo de ela errar um salto e cair, mas me lembrei das palavras de sua tia, e me contive no ímpeto de segura-la. Yasmin chegou logo após ela, nos apresentou e assim que a pequena garota me cumprimentou fazendo uma leve reverência, eu soube que ali era o meu lugar. E cuidar daquelas duas garotas minha missão de vida. Eu estava em casa!                             

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