Feira dos Encontros


O dia ia nascendo devagar, saudado pelo Cristo Redentor sobre o corcovado. A escuridão ia dando lugar aos tons amarelados do amanhecer, que aos poucos iam graduando no horizonte da cidade maravilhosa. As praias que logo estariam superlotadas de residentes e turistas, naquele instante ainda estavam calmas, apenas alguns madrugadores e boêmios caminhavam pela orla. Longe dali em um simpático bairro do subúrbio duas garotas dormiam calmamente, alheias ao fenômeno da natureza que acontecia a alguns quilômetros dali. A noite anterior tinha sido muito alegre e produtiva para a amizade delas. Tinham recebido as amigas para uma pequena reunião e todos ficaram encantados com os versos de Thayane. Em um original estilo de poesia contemporânea, com cunho critico do cotidiano, ela demostrava muito talento literário. Sua irmã Thaiana era sua maior entusiasta e fã número um. A noite foi tão agradável que mal acreditaram quando tiveram de se despedir das melhores amigas. Com tantos compromissos e obrigações era difícil para as irmãs terem tempo livre para receber visitas, então sempre que possível tentavam aproveitar ao máximo.

O despertador marcou seis da manhã e imediatamente começou a soar seu som monótono e alto. Era sábado, mas as obrigações não cessavam na sexta, mesmo no fim de semana elas precisavam começar cedo cuidar da casa dos cursos que frequentavam. Thaiana foi a primeira a despertar e deu alguns chacoalhões na irmã para ela sair da cama. Thayane odiava a rotina de acordar cedo, mesmo que jamais tivesse conhecido outra. Queria poder dormir quanto sono houvesse nela. Mas isso não era possível! Os pais já estavam na mesa tomando café quando as duas chegaram... Elas seriam responsáveis por fazer a feira da semana. Thayane pensou que dos maus seria o melhor, pelo menos não teria de encarar uma lavagem de banheiro quando o dia mal tinha clareado por completo. Thaiana se sentia incomodada com as brincadeiras e cantada dos feirantes, considerava uma tremenda falta de respeito e educação. Na realidade esta era uma percepção das duas, mas a irmã dela realmente preferia ter de ignorar cantadas, a lavar os três banheiros da casa.

O bom de ir bem cedo a feira é que não esta tão apinhada de pessoas, o que atrasaria elas para as aulas de canto. Elas dividiram a lista de compras para otimizar o processo, o que era bom, mas fazia com que tivessem que se separar. Thaiana ficou responsável pela compra das frutas e Thayane pelas verduras e legumes.

Tudo corria muito bem dentro do planejado, até que Thayane notou um tumulto próximo a ela, e antes que pudesse se esquivar da confusão, um garoto esbarrou nela, derrubando sobre ela a bacia de água na qual lavará as verduras. Ela ficou ali toda molhada e sem entender o que estava acontecendo, tudo aconteceu tão rapidamente que seu cérebro não teve tempo nem mesmo de processar reclamações. O rapaz pareceu não notar que tinha a encharcado, continuou a correr atrás de um garoto menor que ele. Algumas pessoas vieram em auxilio a ela que estava estática no meio do corredor entre as bancas. Minutos depois o rapaz voltou, e foi informado por um colega do que ele tinha feito. E se aproximou dela, que agora já estava com a irmã:

- Moça, mil desculpas, eu sai correndo atrás daquele ladrãozinho safado. Todo sábado ele vem aqui e fica roubando frutas da banca. Se ele pedisse nós daríamos, damos para outras pessoas, mas preferir roubar já é demais. Mas você não tem nada com isso, e acabei de molhando toda, me desculpe.
- Olha eu devia mesmo é pegar um balde de água e molhar você  também, mas não ia adiantar de nada mesmo. Agora já estou molhada e fedendo a verdura.
- Posso dar uma carona a você até em casa – Ele olhou e viu Thaiana perto a ela – E a sua amiga também.
- Não precisamos – Thaiana respondeu – Nós moramos perto e somos irmãs. Obrigado de qualquer forma.
- Mas faço questão de fazer um agrado como desculpas, podem escolher o que desejarem da nossa banca, tudo será por minha conta.
- Não precisa, já fizemos nossas compras. Sem falar que não vamos defasar seu salario.
- O dono da banca não desconta do filho dele. A proposito meu nome é Gustavo.
- Eu sou a Thayane e minha irmã a Thaiana. Queria dizer que é um prazer, mas estou molhada demais pra ter prazer com algo agora.
- De qualquer forma, acompanho vocês ate em casa.
- Não precisa! Obrigado – Thayane disse já andando seguida da irmã, que ia mais atrás.

Elas realmente moravam na rua subsequente a da feira, e logo estavam em casa, onde contaram aos pais sobre a confusão. O pai achou graça na história, mas a mãe só conseguia pensar em evitar que Thayane ficasse doente, a todo instante repetia para ela tirar a roupa molhada. Ela precisou de um banho caprichado para tirar o cheiro da água de verdura. Quando saiu do banho Danielle, uma das melhores amigas delas já estava no quarto conversando com Thaiana, que contava a historia para ela, e as três agora acharam graça do acontecido. Elas iriam juntas para a aula de canto. Quase meia hora depois a campainha tocou, O pai das garotas atendeu a porta:

- Senhor, bom dia, eu acredito que tenha molhado a filha do senhor. E como sinal de desculpas, vim trazer esta cesta de frutas para sua família.
- Pelo que soube minhas filhas falaram que não era necessário. Mas já que teve esta iniciativa, não serei mal educado. Muito obrigado!
- Será que posso novamente me desculpar com sua filha?
- Thayaneeeee, você tem visita!
- Não precisa gritar pai. Quem é... – A garota desceu a escada correndo e viu Gustavo – Você?
- Vim trazer uma cesta de frutas frescas para vocês e me desculpar novamente.
- E como achou minha casa?
- Meio que pedi pro meu irmão menor seguir vocês. Desculpe!
- Ninguém meio que segue ninguém né. Não notei que estava sendo seguida.
- Ele é bom nisso. Valeu o dinheiro que tirou de mim.
-Hum! Está desculpado. É só isso? Porque preciso sair pra meu curso.
- Sim, era apenas isso. Vemo-nos por ai.
- Sem banho gelado, por favor! Tchau!
- Tchau!

Como saldo da confusão daquele sábado, as garotas foi dispensadas da ida a feira por três sábados, mas tiveram que ficar responsáveis por outras coisas na casa. Thayane acabou convencendo a irmã a cuidar dos banheiros enquanto ela cuidava do restante da arrumação.  No quarto após aquele episodio a mãe deles não pode ir à feira e novamente pediu as garotas. Desta vez elas ficaram juntas, só pra garantir. Quando passaram pela banca de Gustavo ele fez questão de atendê-las. E pelo que elas puderam notar e comentar depois, ele estava claramente afim de Thayane. Imprevistos e dar banho gelado de água suja em alguém tem este poder de inspirar paixões adolescentes. Ela não tinha reparado tanto assim nele até aquele momento pra se interessar, mas tinha que admitir que ele fosse bem bonitinho e simpático, mas não estava interessada em se envolver com ele ou com qualquer outra pessoa. Thaiana que tivera mais tempo e calma pra reparar no rapaz já  tinha notado naquele mesmo dia que ele era charmoso e bonito, mas o interesse dele era claramente na irmã, então ela também estava de boa quanto a isso.  Então elas agradeceram as gentilezas e continuaram com as compras. Mais tarde elas comentariam entre elas que apesar de bonito ele não fazia o tipo delas.


Aquele tinha sido mais um encontro que tinha produzindo interesse não correspondido em uma das partes envolvidas. Um preço pago por inúmeras pessoas durante o dia. Uma consequência da vida que desde sempre gosta de prestar peças nas pessoas. Um encanto que teria que passar nada mais que isso!

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