Conto: O Velho da Esquina



Era velho! Você pode preferir outra expressão mais politicamente correta, ou mais fofa, mas ele era mesmo velho, talvez com menos idade que aparentava, ou quem sabe mais anos de experiência. Realmente não sei, e para o presente momento pouco importa na verdade.


Ele vivia, ou pelo menos eu sempre o via, na mesma esquina. Nunca pedindo esmolas, nunca parecendo mendigo, apenas estava ali, com sua barba mal aparada, e seus olhos baços mirando o horizonte interrompido pelos edifícios. Soube mais tarde que as pessoas o chamava de Zé, apelido comum, já que devem existir milhões de homens que o carrega, muitos que bem mesmo se chamam "José". É costume geral quando não se sabe o nome de alguém lhe apelidar de Seu Zé, ou D. Maria caso seja mulher. Como também é  de pouca importância o nome dele verdadeiro. Vamos nos juntar a massa que o chamava por esse nome..


O velho estava sempre com ar sonhador, sempre olhando para o horizonte, como se esperasse que algo viesse para ele daquela direção. Não foram poucas as vezes que desejei lhe dirigir a palavra. Em todas elas desisti, após convencer a mim mesmo que iria apenas atrapalhar seu estado contemplativo. Um homem tem direito de colocar seu banquinho de madeira na esquina que quiser,  de não fazer a barba, e mirar o horizonte que não vê.


Sou um homem de hábitos, todas as manhãs frequento o mesmo café na rua Estados Unidos, e era ali ocupando a mesa próxima a janela, que avistava o velho em seu banco de madeira. Nada o incomodava, nada parecia ter mais importância que estar ali esquina. A primeira vez que o vi pensei mesmo se tratar de um desses pedintes de esmolas, mas logo tive que admitir que se o fosse era o pior de todos, tendo em vista que nem mesmo por um segundo levantava de seu banco para se dirigir aos carros que paravam no semáforo. Chamei a atendente do lugar, e perguntei se ela sabia algo sobre ele, e fiquei sabendo que ele ficava ali todos os dias de bom tempo, talvez ficasse em casa nos chuvosos. Ela disse que ele religiosamente chegava as oito da manhã, e se retirava as dezoito horas. Era um trabalhador disciplinado, batia seu ponto na mesma esquina todos os dias.


No dia seguinte tive que retornar para verificar a informação, e lá estava ele, com seu banquinho, exatamente igual ao dia anterior. Dia a dia minha curiosidade foi aumentando, para saber o motivo do velho estar ali, e porque escolherá a esquina. Eu precisava saber como ele chegava ali, e decidi chegar mais cedo no café, às  sete e meia lá  estava eu com os olhos fitos no lugar ainda vazio, enquanto comia meu croissant. Faltando cinco para às oito horas lá  veio ele caminhando calmamente, com as mãos livres, meu primeiro pensamento foi "onde está  o banco?", mas minha dúvida foi sanada quando ele se dirigiu a uma árvore próxima ao seu lugar habitual, e pegou o banco escondido entre o tronco da mesma, e o muro de uma casa. E calmamente foi para o seu lugar  olhando para o horizonte. Aquilo era intrigante demais. Como alguém pode passar o dia todo apenas olhando para o nada?


Por um pouco mais de três anos acompanhei um pouco de seu estado contemplativo. Até que na manhã do último sábado ele não estava lá. Ficou doente pensei, já  me sentia seu amigo, mesmo sem jamais ter trocado uma palavra. No domingo ele não apareceu também, ele era um homem de hábitos também, não ficaria dois dias sem cumprir seu ritual, nos últimos três anos não tinha faltado nenhum dia sequer. Coloquei fé que apareceria na segunda, mas nada dele, resolvi ficar até mais tarde, meu editor teria que esperar um pouco mais para ter os originais. Quando o relógio do café marcou às dez horas e sete minutos um rapaz um pouco mais jovem  que eu apareceu na esquina, olhou para todos os lados, claramente procurava algo, e quando avistou a árvore foi em direção a ela, e notei que tinha algo estranho. Ele estava mesmo indo surrupiar o banco do velho? Isso eu não iria deixar, não sem protestar contra a falta de respeito desse ato. Eu disse para a atendente que logo voltava para pagar a conta, e sai do café.


Quando o alcancei ele já  estava com o banquinho seguro em sua mão direita. Não pensei muito para dizer que ele não poderia levar o banco, pois ele tinha dono, e que procuraria por ele. O garoto disse que sabia disso, e que era neto do velho. E que tinha ido buscar o banco tão querido de seu avô porque ele não precisaria mais dele. Com lágrimas nos olhos disse que o velho tinha falecido a três dias, durante a noite. Foi uma das piores notícias deste ano. Dei os pêsames a ele, e mandei minhas considerações a família. Ele disse que estava feliz em conhecer um amigo de seu avô, o que me deu um pouco de vergonha por não ter jamais dito uma palavra com o velho.


Correndo o risco de ser indelicado, perguntei qual a razão do velho estar todos os dias naquela esquina. O garoto que agora eu sabia se chamar Fernando, deu um sorriso amarelo, e me contou a história. O velho e sua esposa tiveram um casamento de quarenta anos, eram o casal mais feliz que Fernando já conhecerá, e tinham uma família muito grande, como eu já sabia o velho não era mendigo, na verdade era dono de um supermercado a três quadras dali. Em uma tarde de sexta feira ele e a mulher iam para uma festa na casa de um dos filhos, quando uma camionete atravessou o sinal vermelho, arrastando o carro deles por quase cem metros. A mulher morreu antes do Socorro chegar, e o velho preso nas ferragens não pode nada fazer pela esposa. Antes de se entregar nos braços da morte a mulher pediu que ele cuidasse da família, e que jamais esquecesse dela. Quando enfim o Socorro chegou, levaram o velho para o hospital, onde ele ficou internado por um mês em estado crítico. Quando retornou para casa,  sem ter ido para o funeral da mulher que amou uma vida inteira, ele passou a direção e negócios para o filho mais velho,  e quando se recuperou completamente começou a rotina de passar os dias na esquina que pela última vez tinha estado com a mulher, sempre pensando nas coisas que haviam compartilhado. Fernando fez questão de ressaltar que o avô não era maluco, mas que algo tinha se rompido dentro dele com a morte da esposa. E ali ele se sentia melhor, e assim tinha passado seus dias nos últimos oito anos de vida.

Eu achei a história surpreendente, e com muita poesia de vida. Um apaixonado que só queria estar no último lugar que estiverá com sua amada. O que mais dizer? São coisas do cotidiano de nossa cidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário