Tantas vidas nas centenas de carros circulando pela rodovia. SerĂ¡ que apenas uma destas pessoas poderia ao menos imaginar o que se passava em sua vida? Ela ia quase sem rumo a mais de cem quilĂ´metros por hora, tentando organizar as ideias em sua mente. Tinha sido horrĂvel ver todo seu mundo se desfazer diante de seus olhos. Agora ali tudo parecia ter acontecido a mil anos atrĂ¡s, ao invĂ©s de a apenas a duas horas. Quando eles se conheceram ele era apenas mais um rapaz do interior que viera tentar a vida e estudar na capital. Chegou na casa dos tios no mĂªs de agosto mais quente que jĂ¡ viverĂ¡, acostumado com a brisa fresca produzida pelas folhagens das Ă¡rvores de sua pequena cidade. Passou dias completamente exasperado com o calor que emanava das enormes construções de cimento e alvenaria da cidade grande.
Algumas semanas depois de sua chegada conheceu a bela filha dos vizinhos dos tios. Uma garota de dezessete anos, com olhos expressivos e com cabelos em uma tonalidade cobre que ele jamais virĂ¡ igual. Em sua cidade ele sĂ³ conhecerĂ¡ uma pessoa ruiva, mas nunca poderia dizer que era alguĂ©m bonito, afinal era apenas o garoto mais sargento que conhecerĂ¡ e seu melhor amigo Lucas. Ele nunca entendeu bem porque o garoto era ruivo se ninguĂ©m mais de sua famĂlia prĂ³xima era tambĂ©m. Mas a garota era diferente, nĂ£o sĂ³ por ser uma garota, tudo nela era diferente. Era como se fosse de um tipo diferente de ruivo, tudo nela era muito gracioso, as sardas era perfeitas nela, nada exageradas como em Lucas. Ela era simplesmente perfeita! O que mais atraiu a atenĂ§Ă£o dela nele foi o modo simples de ver a vida, tudo era incrĂvel para ele, mas nĂ£o falava de nada de modo afetado, mesmo quando sabia muito pouco sobre ele jĂ¡ queria ouvir ele falando de suas ideias e do mundo. Quase nunca se lembrava que ele era trĂªs anos mais velho, que seus pais nĂ£o eram bem relacionados como os dela. NĂ£o importava que os garotos da turma dela chamavam ele de "o sobrinho pobre dos Andrades", isso era sĂ³ seus amigos sendo os mauricinhos que tinham sido criados para ser. Para ela nĂ£o havia importĂ¢ncia se ele viera do interior ou se tinha dinheiro. Sua famĂlia mesmo nem sempre fora tĂ£o afortunada, sua avĂ³ estava sempre a lembra-la disso. SĂ³ quando seu pai tinha doze anos que o avĂ´ tinha começado a ter visibilidade como produtor musical, e sua produtora obteve bons contratos. E isso ocorrerĂ¡ a menos de vinte e cinco anos. EntĂ£o ela sabia bem que o sucesso chega quando a pessoa tem perseverança e vontade de conquistar. Aparentemente ele nĂ£o se importava com as brincadeiras maldosas dos novos vizinhos, o que contava pontos a seu favor.
Seis meses depois jĂ¡ era evidente que o que iniciarĂ¡ como uma amizade, tinha evoluĂdo para um gostar diferente. Ele estava mais habituado com a cidade e suas excentricidades e ela se sentia feliz em apresentar tudo que ainda faltava conhecer para ele. Ao contrĂ¡rio do previsto pelas amigas dela, os pais de Thaiana aceitaram muito bem o pedido formal de namoro que Ricardo fez. E foi um alĂvio poder externar o que jĂ¡ traziam no peito e na mente. O amor deles crescia a cada dia e a felicidade era sempre presente nas vidas deles. Os vizinhos logo tiveram que admitir que o rapaz interiorano era esperto demais para ser mantido logo, e aos outros foram se aproximando dele, que logo tinha mais conhecidos e amigos no bairro que Thaiana. O que ocasionou a mudança de papĂ©is para eles. Se no inĂcio Ricardo era chamado de o "namorado da Thaiana", aos poucos ela foi se tornando a "namorada do Ricardo". O modo simples e expansivo dele conquistava as pessoas com facilidade, era como se ao olhar para ele todos sentissem que podiam confiar nele se receios de serem enganados. Dois anos passados e o relacionamento nĂ£o iam tĂ£o bem mais tĂ£o bem. Ricardo vivia cheio de compromissos com os novos amigos da Universidade e do bairro. Thaiana vivia a fervura de ser um bicho de Universidade Federal. Os horĂ¡rios nunca batiam, o cansaço pela falta de costume dominava o corpo da garota. E Ricardo ja nĂ£o tĂ£o mais tĂ£o interiorano, agora bem que podia dar aulas de como ser um rapaz urbano. Mas ela ainda era a mesma garota meiga e sonhadora, e ele ainda tinha o magnetismo Ăºnico que fazia com que ela nĂ£o quisesse desistir da histĂ³ria que tinham construĂdo nestes dois anos e do seu primeiro grande amor. Alguns dias eram muito melhores que os outros, mas a cada dia havia menos empolgaĂ§Ă£o, muitas vezes sendo mais fĂ¡cil para ele aceitar um convite para sair com os amigos, do que se deslocar atĂ© a casa ao lado para ficar com ela vendo filmes na TV. E ela passava a aceitar melhor as recusas dele de fazer programas juntos.
Ele agora era um estagiĂ¡rio em uma multinacional, e os traços de garotinho que tinham insistido em permanecer atĂ© os vinte anos, jĂ¡ tinham dado lugar aos traços de homem trazendo uma nova beleza para ele. O que fazia com que as novas admiradoras fossem mais interessantes que as menininhas que corriam atras dele atĂ© um ano antes. Thaiana sentia que perdia espaço em sua vida, e por mais que quisesse manter os Ă³timos momentos ela nĂ£o sabia o que fazer. E jĂ¡ sabia o que esperar.
E agora faltando duas semanas para o Natal ele pediu para conversar, a levou para o interior e meio sem jeito, mas parecendo aliviado deu a triste notĂcia que queria terminar o namoro. E entĂ£o ela nem mesmo respondeu, nĂ£o havia o que responder, simplesmente pegou o carro e saiu de la o mais rĂ¡pido que pode. Nem mesmo pensou em qual seria se destino. SĂ³ sabia que nĂ£o queria voltar para casa, e nĂ£o podia ficar ali. Ela sabia que em algum momento teria que sair da rodovia, fazer o retorno e voltar a sua cidade para sua vida, seu trabalho como assistente do pai, mas por hora dirigir sem rumo era a Ăºnica coisa que queria.

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