06- Emily
Nada parecia certo, sua mente tentava
encontrar combinações conhecidas nos cheiros. Seus olhos estavam vendados e as
mãos amarradas nas costas. O ar tinha um cheiro acre que era mais perturbador
do que enjoativo. Ela acordará a poucos minutos e não entendia porque estava
amarrada e impedida de enxergar, se aquela era uma nova brincadeira dos amigos,
eles se arrependeriam de agir de forma tão infantil, ainda mais o seu namorado
Ricardo, ele deveria proteger ela deste tipo de brincadeira boba. No entanto
nos poucos minutos que estava com dificuldade tentando se manter desperta, ela
já tinha percebido que não estava próxima dos amigos. Ali o ar, o cheiro e as
sensações que chegavam a ela eram totalmente diferentes do que sentia no chalé.
O silêncio era cortado apenas por alguns baixos murmúrios a meia distância
dela. Aos poucos a consciência foi voltando mais firmemente trazendo a certeza
que algo muito estranho tinha acontecido, sua ultima lembrança antes de acordar
naquele lugar era que estava com os amigos a beira da fogueira, mas que
resolveu repousar por conta de uma chata dor de cabeça, o namorado a acompanhou
e ficou com ela no quarto até que ficar com os olhos abertos se tornou algo
extremamente dificultoso, foi quando então ela pediu para ele voltar para junto
dos amigos, enquanto ela mergulhava profundamente no mundo dos sonhos. Sem
conseguir precisar quanto tempo passou ela tinha certeza que sentirá uma leve
picada no pescoço e que tinha acordado para mergulhar novamente em um sonho
pesado e cansativo. Mas depois que Ricardo saiu do quarto tudo era apenas um
borrão, ela não sabia o quanto era verdade e o quanto sua mente se esforçava
para dar sentido aquilo.
Ela resolveu gritar por ajuda dos
amigos. Será que eles estavam ali também? Tinham sido capturados? Ela tinha
sido capturada? Por quem? Nada fazia sentido primeiro às invasões ao chalé e
agora alguém a sequestrava. Aquilo era para serem dias divertidos de verão, mas
não estavam sendo nada legais.
Não tinha a menor ideia de onde
estava, tinha certeza que se os amigos não estivessem tão encrencados quanto
ela, eles a encontraria e tudo ficaria bem. Ela deveria se preparar, tentar se
livrar das amarras das mãos e da venda que cobria seu rosto. Já tinha dormido
demais, agora era hora de perturbar quem quer que fosse seu algoz. Com algum esforço as mãos ficaram soltas da
fina corda que as prendiam, ai foi fácil se ver livre das amarras dos pés e da
venda dos olhos. E ela se viu em um cômodo muito alto e vazio, mas não parecia
ter mais que quarenta metros quadrados, entrava bastante ar então em algum
lugar devia ter uma janela ou exaustor, mesmo que ela não conseguisse
identificar. Até então nada mostrava que o seu aprisionamento fosse algo muito
pensado ou planejado, ela tinha conseguido de livrar muito facilmente do que a
prendia, e claramente as paredes não eram grossas, e ainda tinha o fato de
poder sentir a corrente de ar vinda do exterior. Isso fez ela pensar que até
ali tudo estava fácil demais, o que a fez pensar no ditado que diz que tudo que
parecesse muito fácil, na realidade não é bem assim. Seu primeiro impulso foi
tentar abrir a porta que se mostrou intransponível, era um destes modelos corta
fogo e o lado que abria era o outro, provavelmente tinha sido instalada ao
contrario de proposito. Ela se lembrava bem do funcionamento das portas do
mesmo tipo no prédio do escritório do pai, com certeza por ali ela não
conseguiria sair, mas ainda poderia encontrar o local de entrada do ar, ela
tinha experiência cinematográfica suficiente
para saber que pelo menos encontraria um duto de ventilação. Já que até ali
aquilo se parecia muito com um filme de péssimo gosto.
Com certeza quem quer que a estivesse
vigiando do outro lado da porta já sabia que ela estava acordada e tentando
sair depois das batidas que tinha dado na porta, mas aparentemente não se
importava com isso, talvez imaginando que uma patricinha como ela não teria
capacidade de fugir. Ela provaria o quão errado ele estava, fugiria ali e
voltaria com as autoridades para que ninguém mais passasse por algo parecido
por ali.
Depois de quase uma hora vasculhando
cada canto daquele lugar ela sentiu uma pequena quantidade de ar vindo de trás
de um armário e usou toda a força que tinha para arrasta-lo do lugar. Acabou
por derruba-lo em um baque forte e sem barulhento sem se importar. A fonte de
ar vinda do chão, uma pequena porta escondia a entrada de ar. Seu sequestrador
não se preocupou em trancar a porta então ela abriu sem esforço, e se deparou com
um cano de plástico do tipo usado em grandes construções para despejar os
entulhos do alto direto nas caçambas. Ela teria que se jogar sem saber o que a
aguardava no final. E se jogaria assim que entendesse o que estava acontecendo
ali. E por que não parecia que estavam tentando impedi-la de sair. Pensou que
talvez seu sequestrador achasse que ela preferiria estar ali a estar exposta no
mundo exterior. Só havia um modo de saber, ela teria de falar com a pessoa que
silenciosamente estava do outro lado da porta. Para isso teria de chamar sua
atenção, já tendo notado que nada de mal lhe foi feito fisicamente, ela achou
seguro pensar que ele não iria lhe fazer mal agora. Afinal ali pelo quarto
tinha muitos suprimentos para ela, de modo que a pessoa não queria que ela
morresse de fome ou frio, então bastava saber o que ela queria.
Uma ideia lhe ocorreu e ela procurou
os fósforos que sabia que tinha jogado em algum lugar, ela os usaria em
conjunto com o papel higiênico e faria a fumaça passasse por baixo da porta,
onde tinha um pequeno vão. Quem estivesse do outro lado teria de abrir a
porta. E então conversariam!
A assim que ela tocou fogo na pequena
quantidade de papel enfiada no vão, e a fumaça começou a subir a porta foi
aberta. E um garoto aparentando ter entre dezenove e vinte anos atlético e com os cabelos muito negros e lisos acompanhado
de uma garota de uns seis anos de idade e muito parecida com o rapaz estavam do
outro lado. Antes que ela falasse qualquer coisa o rapaz disse:
- Fogo? Que criativo! Você tem mais
fibra que sua imagem demonstra. Espero que seus amigos sejam iguais... Você
pode sair pela porta se quiser e procurar seus amigos. E falando nos seus
amigos, eles devem estar pra chegar, meu irmão foi busca-los...
- Busca-los?
O garoto ignorou a pergunta e
continuou:
- Eles já devem estar chegando – Ele colocou
a cabeça pra dento do quarto – Meu Deus que bagunça você fez em nossa despensa,
nós vamos precisar destes suprimentos para
o desafio que vamos ter pela frente.
- Desafio? – Emily parecia só
conseguir fazer perguntas em palavras únicas.
- Depois falamos de desafios. Você
deve estar louca pra sair dai e comer algo, quem sabe tomar um banho.
- Eu posso mesmo?
- É claro que pode, só pegamos você
para atrair seus amigos também. Tentamos fazer com que vocês seguissem o Maik,
aqui, mas seus amigos desistiram muito rápido. Então pensamos que se fosse uma
busca por um de vocês a motivação seria maior. Desculpe pelo mau jeito!
- Que insano!
- Desculpe de verdade. Se não acredita
em mim, pode ir... Pegue o que quiser da dispensa e pode ir. Posso te dar a
direção que eles estão chegando, mas não posso garantir que não irão se
desencontrar. E não posso te livrar de ele a encontrar primeiro.
-Quem é ele? Não estou entendendo
nada!
- Fique apenas mais alguns minutos e
tudo será explicado quando seus amigos chegarem.
- Posso mesmo confiar? Ficar aqui,
tomar banho e comer algo?
- O Maik até pegou algumas roupas na
sua mala. Ele tem bom gosto, acho que vai aprovar.
- Ok! Ficarei mais não mais que meia
hora. – Ela disse enquanto torcia para não se arrepender.
- Não será preciso mais do que isso.
- Onde é o banheiro?
- Duas portas a esquerda. Têm toalhas
limpas – O garoto maior abraçou o menor e o conduziu ao velho sofá – Depois pode
se juntar a nós e assistir desenho animado. Adoramos estas coisas. – Ele disse
sorrindo.
Ela foi ao banheiro.
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