A Visita
A luz amarelada do amanhecer banhou a enorme
montanha antes mesmo que os amigos pudessem despertar. Não havia galo para
cantar na madrugada, nem mesmo qualquer outro animal ou pessoa para fazer
barulho para desperta-los. A noite anterior tinha começado carregada de tensão
e medo, e nem mesmo o final calmo tinha conseguido tirar totalmente a impressão
ruim que tinha ficado. A manhã foi aos poucos chegando e sendo aquecida pelos
fortes raios do sol que reinava absoluto no céu. Henry foi o primeiro a despertar
quando o relógio marcava às nove horas da manhã, e logo saiu pra fazer uma
caminhada pelos arredores esperando conhecer um pouco mais sobre aquele lugar,
e quem sabe encontrar lugares interessantes para compartilhar com os amigos
quando acordassem. Saindo pela porta da frente do chalé ele se deparou com o
lago a sua frente, pela esquerda ele sabia que o lago não ia muito longe,
afinal aquela era a direção pela qual eles tinham chegado, ele não tinham visto
qualquer sinal de água pelo caminho. Então se fosse seguir beirando as águas
ele teria que ir para esquerda. Ainda saindo da casa ele via uma parte da mata
que vinha de trás da casa, olhando dali a floresta parecia muito fechada e de
difícil acesso, e eles não tinham trazido qualquer equipamento para desbravar
matas fechadas. Então seguido seu extinto e a logica que do que seria mais
fácil e menos arriscado em questão de se perder, ele resolveu seguir o curso do
lago Mannica. Tomou o cuidado de pegar uma garrafa de água e um boné para se
proteger do sol. E foi muito devagar seguindo pela borda do lago, ás vezes
pegando pequenas pedras para lançar na água fazendo com que quicasse varias
vezes na superfície. Ele estava caminhando despreocupadamente por quase uma
hora quando avistou uma pequena construção a alguns metros do lago dentro da
mata. Ela estava incrivelmente bem conservada, mas apesar dele ter ficado algum
tempo observando o local não viu qualquer indicação que fosse habitada ou que
alguém estivera por ali nos últimos dias. O acesso seria difícil para carros e
não havia animais de pontaria por perto, então ele concluiu que tivesse sido
abandonada há pouco tempo, ou fosse outra casa de aluguel que não estava
ocupada. Apesar da curiosidade não se aproximou muito, porque teve a estranha
sensação que não era para ele estar ali, e lembrou-se claramente de sua mãe lhe
dizendo que mexer com o que não é da sua conta, só pode trazer problemas não
são seus, mas que irão atormenta-lo por um longo tempo. E quando olhou para o
relógio percebendo que já que já era quase onze horas, e os amigos e a namorada
já deviam estar acordados e procurando por ele, toda a curiosidade pode esperar
pra outra hora. Ele refez o caminho seguindo o percurso do lago, até encontrar
Matheus e Ricardo que viam a sua procura.
- Mano a Tiffany pirou quando não te encontramos
em nenhum lugar da casa.
- Todos estavam dormindo, e eu pensei em caminhar
um pouco e tentar achar algo interessante.
- E encontrou? Porque sua namorada esta muito
nervosa. Você vai precisar de uma boa história para acalma-la.
- Só uma pequena casa, a mais ou menos há meia
hora daqui. Mas esta vazia, e parece que esta assim por muito tempo.
-Definitivamente esta não é uma boa história pra
contar pra ela e faze-la esquecer do susto que levou. Pode tentar incluir monstros
gigantes e vampiros assassinos – Ricardo falou tirando uma com a cara do amigo.
As garotas arrumavam a mesa do café da manhã
quando os três garotos chegaram. Tiffany estava abrindo alguns pacotes de
biscoitos, e Henry lhe deu um beijo no rosto. A garota pareceu não notar a
presença do namorado, ou o beijo carinhoso. Ele começou a explicar:
- Acordei muito curioso sobre este lugar. Tipo tem
estas ruinas logo ali, então deveria ter outras coisas por perto e tal. Resolvi
dar uma caminhada por ai, e fui seguindo o lago na tentativa de encontrar
alguma coisa no caminho. Poxa, mas este lugar é realmente isolado.
- E achou algo interessante? Ou só serviu pra nos
deixar preocupados?
- Na verdade depois de andar muito encontrei uma
casa, muito menor que esta. Pensei que podia ser onde o dono deste lugar
estava, mas não havia ninguém nela.
- Então você foi até a casa e simplesmente bateu
na porta. Tipo ontem a noite tinha alguém dentro do chalé, e hoje pela manhã
você resolveu desbravar a mata e tentar fazer amizade com os supostos moradores
de uma casinha no meio do nada. –
Tiffany falou nervosa, colocando com força o prato com os biscoitos na mesa.
-Fanny fique calma! Eu sei que você acha que viu algo na janela
ontem, mas deve ter sido mesmo o vulto de uma cortina, ou qualquer outra coisa.
Não tinha sinais de ninguém aqui dentro.
- Eu sei o que vi, e se nem mesmo meu namorado acredita
em mim. Estamos mesmo mal não é?
- Não, não estamos. Eu sei que viu algo, só disse
que não foi uma pessoa. Talvez tenha sido este negocio de por chapéu. Isso bem
que parece uma pessoa de longe.
- Hum! Vamos tomar café. Precisamos dar um jeito
de comprar mais suplementos, só trouxemos guloseimas, e ainda temos seis dias
aqui.
- Depois do café podemos ir naquele mercado na
estrada, não fica tão longe... As garotas podem ficar aqui se preferirem.
- Nem ferrando eu fico aqui sem vocês – Maria Eduarda
falou quase sem pensar – A Fanny viu algo aqui ontem, e pode ter sido alguém
sim... Vamos todos!
O trajeto até o supermercado pareceu bem maior do
que eles se lembravam. Então resolvemos exagerar nas compras, pois era melhor
pecar pelo excesso e não ter de fazer aquele percurso novamente, do que ter de
voltar de perder mais horas de diversão. A atendente era a mesma do dia
anterior, e ficou surpresa em revê-los tão rapidamente.
- Nossa ninguém retorna aqui tão rapidamente.
Vocês não iriam passar uma semana numa montanha ou algo assim?
- Nós vamos, mas precisamos de mais coisas pra
passar tanto tempo por lá. – Emily
respondeu
- Tiveram sorte, nos próximos dias estaremos
fechados. Só reabriremos na próxima semana.
- Ainda bem que viemos agora então. Eu me chamo
Emily Munhoz!
- Clarice Leite. Prazer!
-Prazer! Agora é melhor nós irmos, temos muitos quilômetros
até nosso chalé.
- Vocês estão no Chalé Linderberg?
- Sim, você conhece o lugar ou o dono? Ele é bem
misterioso!
- Não, eu nunca fui lá, nem conheço o dono, mas
meio que... – Clara se calou no meio da frase.
-Meio que?
- O cara é dono da maioria das terras daqui até
uns 40 km. Todos já ouviram falar dele, mas ninguém nunca viu.
- Só isso? Tem certeza? Você me pareceu
preocupada!
-É que houve um acidente ontem, com um pessoal que
estava hospedado no mesmo chalé que vocês.
- Aquele carro que bateu de frente com o caminhão,
na contra mão?
- Sim!
-Meu Deus do céu!
- Foi uma tragédia de verdade.
-Foi sim, preciso ir! – Emily se afastou sentindo-se
meio enjoada em lembrar-se do sangue que vira no acidente.
No caminho de volta ela contou para os amigos tudo
que conversará com Clara.
- Vocês não acham estranho que alguém que tem tantas
terras e dinheiro alugue chalé por alguns trocados? –Ela comentou quando já
chegavam ao topo da montanha.
- Não, eu não acho tão estranho quanto o portão
estar aberto quando tenho certeza que vi o Matheus trancando ele.
- E eu tranquei mesmo Jon.
- Pois alguém o abriu. Será que foi o dono que
resolveu dar as boas vindas?
- Que merda véi! Melhor as garota ficarem na
Kombi.- Henry sugeriu
- Jonatas este estaciona na frente da porta... Conforme
for nem descemos neste lugar.
- Tem razão amor!
A porta estava escancarada. E as luzes estavam
acessas! Eles ficaram ali olhando pelas janelas da Kombi procurando por sinais
de visitantes indesejados. Qando de repente Maria Eduarda quase gritou.
- Vi uma criança entrando na mata.
- Onde?
- Ali – a garota indicou com o dedo
Jonatas seguido de Henry e Ricardo saiu correndo
da Kombi em direção ao lugar indicado pela garota, antes mesmo de ouvirem as
namoradas pedirem para ficarem com elas. Caio tornou a fechar a porta, apesar
da vontade de correr com os amigos. Ele e Matheus agora tinham que cuidar delas
até o retorno dos outros garotos. Os três se entraram na mata ainda correndo.
- Caio você fica com as garotas, vou ir a casa e
ver se podemos entrar, não podemos ficar presos aqui, ainda mais se tivermos
visitas. Se estiverem mal intencionados devemos poder revidar...
- Beleza, eu cuido das garotas. Vamos fazer igual
ontem à noite. Duda você fica na direção. As outras procurem algo pra nos
defender. Matheus leva a chave de roda, e qualquer coisa grita que corro pra
lá.
As garotas argumentaram que era melhor que todos
ficassem juntos, mas acabaram convencidas que na Kombi eram alvos fáceis demais.
Matheus entrou devagar na casa!
Dez minutos passaram-se... Vinte minutos... Meia
hora e ele ainda não havia retornado. Os garotos também não voltavam da mata. A
tensão na Kombi não abaixava em nenhum momento. Uma parte dos ocupantes olhava
para a mata e outra para a porta do chalé. Ao completar quarenta minutos
Matheus apareceu na porta e fez sinal para eles saírem da Kombi. Caio e as
garotas agarraram as sacolas de compras e foram rápido em direção a casa. Alice
abraçou o namorado e foi se juntar as sentando
no sofá enquanto os garotos trancavam a casa.
- Não vou mentir alguém esteve aqui hoje, talvez seja
a mesma pessoa que a Tiffany viu ontem. Sei lá, quando entrei não vi ninguém
por aqui, mas tem algumas pegadas pela casa. E o quarto das meninas está meio
bagunçado. Acho que tinha alguém dormindo lá ou só deitado. Então pode ser só
um invasor cansado. Que se assustou com o barulho do carro chegando. A Duda viu
uma criança então bem que pode ser isso mesmo. O engraçado é que descobri que
aquela porta trancada no fundo do corredor é a estrada de um porão, e por acaso
agora a porta esta aberta, mesmo que não tenhamos a chave, eu desci lá, mas não
andei muito. Mas é bem grande. Vamos esperar os outros chegarem.
- Por isso que você demorou tanto? – Alice perguntou
para o namorado
-Queria ter certeza que não tinha mais ninguém
aqui.
Uma hora depois batidas foram ouvidas na porta! A
tensão que tinha abaixado um pouco, novamente atingiu níveis alarmantes. Ninguém
se moveu do sofá! Mais batidas fortes na porta. Caio começou a se levantar, mas
Emily o segurou pelo braço. Ninguém se moveu.
- Caio... Matheus? Vocês estão aí? Estão bem?
Eles reconheceram a voz de Jonatas.
-Estamos sim, um minuto. - Caio se desvencilhou
das mãos de Emily e abriu a porta pros amigos.
As garotas se apressaram em ir pra junto dos
namorados recém-chegados. Matheus contou o que aconteceu por ali e os amigos
relataram sua incursão na mata.
- Não conseguimos alcançar quem entrou na mata,
nós podíamos ouvir os barulhos que fazia, mas não víamos nada, mas corremos
muito de verdade, mas era como se a pessoa sempre corresse mais que nós. Mas
claramente tinha alguém fugindo de nós. E aí do nada nos vimos em um pequeno cemitério
muito velho, com lapides de mármore com nomes de famílias estrangeiras e anjos
de pedra. A família do Florêncio Schmidt tem um dos maiores túmulos do lugar.
Que é de arrepiar de verdade. Tivemos que desistir da caçada, não encontramos
nada!
- Acho que o Matheus esta certo, devia ser um
viajante cansado ou um índio que invadiu a procura de descanso e comida. –
Ricardo ponderou
- Neste
caso ele teve de se contentar com biscoitos e suco. – Emily tentou fazer graça.
Caio que não era tão facilmente convencido, mas
não queria trazer alarde para os amigos ficou com um pensamento na mente:
“Como uma criança
andarilha ou índio errante poderia ter a chave do portão, e da casa?”


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