“É certo que na vida se: Nasce, cresce e morre. Todos os
seres humanos estão muito satisfeitos com os dois primeiros fatos, mas ninguém,
absolutamente ninguém esta realmente plenamente à vontade com o fato que um dia
terá de deixar esta vida. E por isso a buscar por postergar os dias e anos como
individuo ativo no mundo, seja uma das maiores permeiam a existência humana.”
A paisagem era como as vistas em um filme de cinema. Uma
longa estrada com grandes árvores serpenteando a perder de vista. Como se ao
fim dela se pudesse tocar o horizonte. Um motorista com pressa, ou transeuntes despercebidos
com certeza não notariam o pequeno ponto branco destoando à paisagem verde, bem
acima da pequena formação de rochas a alguns metros da estrada. E mesmo que
tivesse atentado para este detalhe na paisagem, não entenderia porque alguém
teria escolhido aquele trecho desabitado para ficar. Fora as pedras e as árvores
não havia nada que chamasse a atenção naquele local. Mas o fato é que uma
garota esta ali sentada, bem encolhida de modo que só sua camiseta branca podia
ser notada ao longe. Ela chorava, mas os sons não chegavam à estrada. Ela
gritava, e nem mesmo estes sons atraiam atenção. Estava só com sua dor.
A menos de uma hora ela estava no pequeno vilarejo a
alguns quilômetros dali, sentada em uma das pequenas mesas da sorveteria local,
jogando papo fora e sorrindo com as duas melhores amigas. A tarde estava quente
e úmida, uma combinação terrível que só o verão pode trazer. Então decidiram
pegar suas Scooters e sair pela vila, e assim fizeram até pararem para tomar
sorvete. Maria Cecilia e Isabela eram suas melhores amigas em todo o mundo, era
assim que elas se apresentavam sempre. Tiffany era uma linda garota de
dezesseis anos, muito loira, e olhos incrivelmente vivos. Tudo que ela poderia
desejar ela tinha, filha de vereador da cidade, no vilarejo era tida como a
princesa do local. Nascerá e se criará ali, conhecia desde o padeiro, até o
prefeito. Era simpática e agradável com a maioria das pessoas. Apenas Lorraine
conseguia tirar sua paciência. Na infância suas famílias tinham feito de tudo
para que fossem amigas, mas o tempo acabou mostrando que isso seria impossível,
elas eram os extremos opostos. Na maioria das vezes era divertida para ela a
rivalidade que mantinham. Mas não havia graça alguma no que naquela tarde ela presenciará.
Nada mesmo no mundo poderia a preparar para aquilo.
Tiffany sempre teve certeza que encontrará seu príncipe encantado
no jardim de infância. Matheus era seu
namorado desde sempre, um dia se encontraram no parquinho e nunca mais se
largaram. A família dele era dona da farmácia e do supermercado da cidade.
Faziam um belo casal, e todos amavam vê-los juntos.
Naquela tarde a garota estava tomando seu sorvete com as
amigas, sem reparar muito nas pessoas que estavam por ali, muito menos na praça
logo em frente. Mas Isabela chamou a atenção dela:
- Fany, aquele não é o Matheus?
- Nossa, será que meu bebê não me viu aqui – Ela fez
beicinho – Vou falar com ele.
Ela se levantou, e saiu da sorveteria, mas quando ia
atravessar a rua viu que tinha alguém ao lado do namorado. Ficou ali parada
forçando os olhos para tentar ver quem era. De repente o rosto de Lorraine se
tornou nítido. Bem a tempo de vê-los aproximarem em um beijo. O dia claro
escureceu em suas vistas, tudo rodou sem parar, era como se o mundo desabasse a
sua volta, seus sentidos voavam sem rumo. Ela se apoiou no poste próximo, e
quando novamente voltou a si, reuniu as forças e deu vazão em um longo grito.
-Maaaatheuuuus!
O garoto olhou rapidamente ao redor, até encontrar os
olhos da namorada a alguns metros. Sem pensar ele correu para chegar até ela.
Uma rua os separava então, ele não parecia tomar conhecimento disso naquele momento,
atravessou sem preocupação. Segundos depois estava jogado no chão com sangue
saindo de sua cabeça e tórax. Na afobação ele não notará que um velho trator
estava de passagem, o motorista bem que tentou, mas não conseguiu diminuir a
velocidade, não conseguiu parar, o pegou em cheio. Os sonhos de Tiffany que
tinham começo a desabar com o que presenciará a poucos minutos, agora jaziam
jogados no chão. Foi para junto do garoto que tentava falar, sem conseguir, uma
pequena aglomeração se formou, logo a ambulância da vila estava ali. Ela
implorou para ir junto dele, vendo seu desespero os paramédicos deixaram.
O hospital ficava no centro da cidade, a vinte minutos
dali, ele aguentou menos de três deste minutos. Apenas o tempo de com enorme
dificuldade dizer:
-Des... cucul...pa
E então expirou olhando para ela, a pouca força que ela
sentia em sua mão que segurava desesperadamente, se perdeu. Ela sabia que ele
já não habitava aquele corpo. Mas não queria crer. Implorava para o motorista
correr cada vez mais. O paramédico tentou pegar a pulsação dele, mas já não
existia. Chegaram ao hospital para constatar a morte. Ela ainda implorava para
o salvarem. Mas nada puderam fazer. Isabela e Maria Cecilia chegaram logo após,
em suas motos, tentaram a consolar. Mas não adiantou. Pegou a chave da Scooter
de Isabela e saiu correndo do hospital, rumou para o único lugar que veio a sua
mente. As pedras onde tantas vezes estivera a contemplar o por do sol com Matheus.
E ali chorou, berrou, falou com Deus, xingou e deixou a dor contida tomar conta
dela de si.
O mundo tinha dado uma volta e ela estava duplamente
dolorida, por ter perdido aquele que tanto amara, e por descobrir poucos
minutos antes de sua partida que ele a traíra com Lorraine, que sempre teve
inveja dela, desejando tudo que ela tinha. No fim acabou ficando até com o
ultimo beijo do único garoto que Tiffany tinha amado na vida. No entanto a traição
não importava diante da precoce morte do garoto. Seria difícil, mas ela poderia
viver em paz, sabendo que ele estava feliz com outra pessoa, mesmo que
Lorraine. Mas a perspectiva de viver num mundo onde simplesmente ele não
existia lhe parecia impossível, sem razão alguma de ser.
Depois de um tempo notou que não sabia onde tinha deixado
a moto da amiga, e alguém teria que avisar para a família dele, mas isso já
deveria ter sido feito, e que amaldiçoar o céu e a terra não iam acabar com a
dor. Encontrou a moto próxima a estrada deitada no chão. Vagarosamente pegou a
motocicleta e partiu novamente rumo ao hospital, mas a cada metro percorrido
pelo veiculo, mais a dor aumentava, as lembranças vinham como torrente de água
em uma represa. Tudo no caminho a lembrava do namorado. Era penoso demais estar
naquele local. Os pais do garoto já estavam na sala de espera e correram para
abraça-la, e os três ficaram ali abraçados chorando sem usar palavras, apenas
sentindo o conforto um nos outros.
Dois dias depois foi o funeral, tudo muito bem planejado,
muitos amigos, familiares e conhecidos. Ela ocupava a cadeira ao lado dos pais
dele. Amigos fizeram homenagens, contaram historias, e aventuras. E então
chegou a vez dela:
- Todos aqui sabem que muito antes de eu ou o Matheus
sabermos o que significava isso, nos tornamos namorados. Eu achava mesmo que envelheceríamos
juntos e com sorte a morte nos abraçaria no mesmo instante. – Ela deu uma pausa
para assoar o nariz e secar as lagrimas. Viu Lorraine nos fundos, não se
importou, não era hora para isso. Então continuou – Hoje todos nós sabemos que
isso não foi possível, ele voou para longe, onde não posso agora alcança-lo,
mas em meu coração ele sempre viverá e reinará como meu amor. Nestas horas sei
que devemos falar coisas bonitas, mas não sei como fazer isso. Então direi que
o admirei por quase todos os dias que passamos juntos, não em todos, porque
havia dias que ele era o cara mais cabeça dura dentre os homens. E isso me
irritava demais. Mas em todos os dias o amei com toda a força que houve em mim.
Obrigado meu amor, obrigado a todos!


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